SENHORA: CASAMENTO POR INTERESSE


Vamos imaginar uma situação típica de casamento: você conhece alguém que lhe atrai, começa a namorar, vive uma paixão deliciosa, sente muito tesão, aproxima-se da família do outro, planejam o casamento, compram o apartamento... e acham que será tudo muito lindo e gostoso quando trocarem as alianças. Bem, nem sempre é assim, posto que a partir do momento que passam a viver juntos, convivendo com as diferenças e manias ou defeitos do outro (que antes não incomodavam por não fazerem parte do seu dia-a-dia), e passando pelas dificuldades do cotidiano comuns a todos, o humor muda, a paciência diminui, os conflitos começam a tomar forma e você começa a se questionar se fez a escolha certa. 


Não quero dizer que casamento é só coisa ruim, de jeito algum, apenas pretendo frisar que conviver com outra pessoa requer maturidade, troca, disposição para abrir mão de certas coisas, paciência, tolerância, aceitação das diferenças, colocar-se no lugar do outro sempre, apoio mútuo, enfim, é uma oportunidade única de crescimento pessoal se ambos estiverem dispostos a isso. 
Agora, se mesmo estando disposto e amando o cônjuge já é difícil passar por certas situações e colocar em prática tudo isso, imagine no casamento onde não há amor, onde tudo o que se almeja é o dinheiro do outro e as vantagens que este pode lhe proporcionar? Como será passar por dificuldades no relacionamento? Aonde ficará a paciência e a disposição em resolver possíveis conflitos numa boa, se não há o afeto que permeia a relação? E os filhos como serão criados? Que modelo de relação lhes será passado?


Direcionar sua vida em função do dinheiro pode lhe trazer terríveis consequências, a começar por não vivenciar uma relação saudável pautada no amor com alguém ao seu lado, estando fadada à miséria emocional, à não realização afetiva, e não aprendendo a lidar com situações de frustração ou falta, já que essa relação deve ser sempre "perfeita" para que o casal permaneça junto - não há espaço para a dificuldade financeira, qualquer passo em falso coloca tudo a perder, além de não existir interesse e investimento no aprofundamento da relação conjugal; ninguém pode falhar, qualquer situação que saia do previsto pode assumir proporções enormes, já que não há a aceitação do outro pelo que ele "é", e sim pelo que ele "tem".
Há pessoas que arriscam-se a mudar de país, acompanhando um marido estrangeiro que mal conhece, indo atrás da sedução de uma vida financeira farta em um país mais desenvolvido (dá status morar fora...), correndo o risco de isolarem-se nesses lugares desconhecidos, estando sempre à sombra de alguém, sofrendo o isolamento imposto por estarem longe dos amigos e familiares. Em muitos casos a solidão não suporta o novo estilo de vida.


Finalmente, diria que se você pretende casar-se por interesse, que este seja por sua felicidade, por sua realização como pessoa, como ser humano, por querer crescer e experimentar um novo modo de dividir as coisas com alguém especial ao seu lado. Pois sabemos muito bem que o dinheiro ajuda bastante, mas não garante a felicidade de ninguém!
Marina Vasconcellos é psicóloga graduada pela PUC SP, com especialização em Psicodrama Terapêutico pelo Instituto Sedes Sapientiae, Psicodramatista Didata pela Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) e Terapeuta Familiar e de Casal pela UNIFESP

JOSÉ DE ALENCAR


José de Alencar (1829-1877) foi romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Foi um dos maiores representantes da corrente literária indianista. Destacou-se na carreira literária com a publicação do romance "O Guarani", em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, onde alcançou enorme sucesso. Seu romance "O Guarani" serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes, que compôs a ópera O Guarani. Foi escolhido por Machado de Assis, para patrono da Cadeira nº 23, da Academia Brasileira de Letras.
José de Alencar consolidou o romance brasileiro, ao escrever movido por sentimento de missão patriótica. O regionalismo presente em suas obras, abriu caminho para outros sertanistas, preocupados em mostrar o Brasil rural.
José de Alencar criou uma literatura nacionalista onde se evidencia uma maneira de sentir e pensar tipicamente brasileiras. Suas obras são especialmente bem sucedidas quando o autor transporta a tradição indígena para a ficção. Tão grande foi a preocupação de José de Alencar em retratar sua terra e seu povo que muitas das páginas de seus romances relatam mitos, lendas, tradições, festas religiosas, usos e costumes observados pessoalmente por ele, com o intuito de, cada vez mais, abrasileirar seus textos.
José de Alencar (1829-1877) nasceu em Mecejana, Ceará no dia 1 de maio de 1829. Filho de José Martiniano de Alencar, senador do império, e de Ana Josefina. Em 1838 mudam-se para o Rio de Janeiro. Com 10 anos de idade ingressa no Colégio de Instrução Elementar. Com 14 anos vai para São Paulo, onde termina o curso secundário e ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Em 1847 escreve seu primeiro romance "Os Contrabandistas". Em 1950 conclui o curso de Direito. Pouco exerceu a profissão. Ingressou no Correio Mercantil em 1854. Na seção "Ao Correr da Pena" escreve os acontecimentos sociais, as estreias de peças teatrais, os novos livros e as questões políticas. Em 1856 passa a ser o redator chefe do Diário do Rio de Janeiro, onde em 1 de janeiro de 1857 publica o romance "O Guarani", em forma de folhetim, alcançando enorme sucesso, e logo é editado em livro.
Em 1858 abandona o jornalismo para ser chefe da Secretaria do Ministério da Justiça, onde chega à Consultoria. Recebe o título de Conselheiro. Nessa mesma época é professor de Direito Mercantil. Foi eleito deputado pelo Ceará em 1861, pelo partido Conservador, sendo reeleito em quatro legislaturas. Na visita a sua terra Natal, se encanta com a lenda de "Iracema", e a transforma em livro.
Famoso, a ponto de ser aclamado por Machado de Assis como "o chefe da literatura nacional", José de Alencar morreu aos 48 anos no Rio de Janeiro vítima da tuberculose, em 12 de dezembro de 1877, deixando seis filhos, inclusive Mário de Alencar, que seguiria a carreira de letras do pai.

Obras de José de Alencar:

- Cinco Minutos, romance, 1856;
- Cartas Sobre a Confederação dos Tamoios, crítica, 1856;
- O Guarani, romance, 1857;
- Verso e Reverso, teatro, 1857;
- A Viuvinha, romance, 1860;
- Lucíola, romance, 1862;
- As Minas de Prata, romance, 1862-1864-1865;
- Diva, romance, 1864;
- Iracema, romance, 1865;
- Cartas de Erasmo, crítica, 1865;
- O Juízo de Deus, crítica, 1867;
- O Gaúcho, romance, 1870;
- A Pata da Gazela, romance, 1870;
- O Tronco do Ipê, romance, 1871;
- Sonhos d'Ouro, romance, 1872;
- Til, romance, 1872;
- Alfarrábios, romance, 1873;
- A Guerra dos Mascate, romance, 1873-1874;
- Ao Correr da Pena, crônica, 1874;
- Senhora, romance, 1875;
- O Sertanejo, romance, 1875.

PERSONAGENS

Principais:

♦ Aurélia Camargo (Senhora) Uma mulher diferente de todas as outras que naquela época viviam. Destacava-se pela sua beleza e pela sua maneira de agir e de pensar. Opunha-se a algumas regras determinadas pela sociedade que não lhe agradavam. Aurélia a todos pode dominar e tem tudo o que quer ter. Era educada, delicada, corajosa, elegante, informada, inteligente, experiente. Era com certeza, alguém que nasceu para a riqueza e para a alta sociedade, e talvez, a característica que consideramos a mais importante, que pode ser a explicação de seu sucesso no domínio das pessoas: a sua frieza e seu estimável autocontrole.
♦ Fernando Seixas Uma importante característica de Seixas é o enorme contraste entre a sua vida social que levava na alta sociedade e a que tinha em casa com sua família. Seixas era um homem de classe, que possui bens caríssimos, só disponíveis às pessoas da mais alta sociedade. Fernando era fino, nobre, elegante, educado e extremamente inteligente. Era um moço extremamente jovem e carinhoso, sabia perfeitamente como tratar as irmãs (que o bajulavam a toda hora e brigavam ciumentas por ele). Vale também dizer que Fernando possuía uma barba castanha e um bigode muito elegante.
♦ Lemos Era baixo, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Era vivo, extremamente alegre e confiante. Lemos era ainda um velho otimista, principalmente nos negócios que costumava fazer, e sabia perfeitamente conduzir uma transação, mesmo que esta não se acomode em bons resultados de início, como foi o caso da sua conversa com Seixas pelo dote de cem mil contos de réis oferecidos por Aurélia.
  
Outros:

♦ D. Firmina – mãe de encomenda de Aurélia que lhe fazia companhia nas festas e compras.
D. Emília – mãe de Aurélia e irmã de Lemos, a quem este abandonou por ter-se casado com Pedro Camargo. 
♦ Pedro Camargo pai de Aurélia e filho natural do fazendeiro Lourenço Camargo, que deixa, ao morrer, uma herança à neta, Aurélia.
Adelaide – Pelo dote que seu pai oferece tira Fernando Seixas de Aurélia, mas mesmo Torquato Ribeiro sendo pobre ela o amava e conseguiu casar-se com ele graças a Aurélia. 
♦ Torquato Ribeiro moço bom, simples e humilde que procurou ajudar Aurélia nos vários momentos difíceis, quando pobre. 
♦ Eduardo Abreu pretendente de Aurélia. Moço bom que custeou as despesas do enterro de sua mãe amada.
http://metalibri.wikidot.com/t:alencarjm-senhora

SOBRE


Publicado em 1875, Senhora é uma das últimas obras escritas por José de Alencar. Ele explora a temática do casamento como forma de ascensão social, dando início a uma discussão sobre certos valores e comportamentos da sociedade carioca da segunda metade do século XIX.
Mesmo ainda presa no modelo narrativo romântico, onde o amor é visto como o único meio de redimir todos os males, “Senhora” apresenta alguns elementos inovadores, que prenunciam a grande renovação realista, tais como: a vigorosa crítica à futilidade comportamental e à fragilidade dos valores burgueses resultantes do capitalismo brasileiro emergente e certo grau de introspecção psicológica.
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 Ed. São Paulo, Atual Editora, 2005, p.254-5.

SINOPSE


Aurélia Camargo, filha de uma pobre costureira e órfã de pai, apaixona-se por Fernando Seixas – homem ambicioso - a quem namorou. Este, porém, desfaz a relação, movido pela vontade de se casar com uma moça rica, Adelaide Amaral, e pelo dote ao qual teria direito de receber. Passado algum tempo, Aurélia, já órfã de mãe também, recebe uma grande herança do avô e ascende socialmente.Passa, pois, a ser figura de destaque nos eventos da sociedade da época. Dividida entre o amor e o orgulho ferido, ela encarrega seu tutor e tio, Lemos, de negociar seu casamento com Fernando por um dote de cem contos de réis. O acordo realizado inclui, como uma de suas cláusulas, o desconhecimento da identidade da noiva por parte do contratado até as vésperas do casamento. Ao descobrir que sua noiva é Aurélia, Fernando fica muito feliz, pois, na verdade, nunca deixou de amá-la. A jovem, porém, na noite de núpcias, deixa claro: "comprou-o" para representar o papel de marido que uma mulher na sua posição social deve ter. Dormiram em quartos separados. Aurélia não só não pretende entregar-se a ele, como aproveita as oportunidades que o cotidiano lhe oferece para criticá-lo com ironia. Durante meses, uma relação conjugal marcada pelas ofensas e o sarcasmo se desenvolve entre os dois. Fernando trabalha e realiza um negócio que lhe permite levantar o dinheiro que devia a Aurélia. Desse modo, propõe-se a restituir-lhe a quantia em troca da separação. Considerando o gesto uma prova da regeneração de Fernando, Aurélia, que nunca deixara de amá-lo, é vencida pelo amor.Aurélia mostra para Fernando um testamento, escrito após o casamento deles, em que ela deixa toda sua herança para ele,e assim eles descobrem que realmente se amam.